Manly P. Hall aos 89 anosAo tempo em que procuro evitar a indiscrição, temo que acabe por cometê-la ao redigir este post. No risco de fazê-la, valho-me da tentativa honesta e descompromissada, na esperança de auxiliar a todos que buscam a compreensão dos mistérios milenarmente preservados pelas Escolas de Sabedoria Antiga, as mais diversas, e que na atualidade muitas não mais os compreendem. Aqueles que por muitos anos seguiram uma delas sabem do que estou a falar, e é a estes que peço permissão e desculpas pela ousadia.
O alicerce, o ponto central destas Escolas funda-se principalmente, nos rituais iniciáticos, nas suas alegorias, nas mitologias, enfim, na tradição. Algumas as encenam em processos reais, numa dramaturgia que tem a finalidade de gravar no mental e no emocional a projeção do conhecimento, ou seja, de propiciar ao inconsciente mecanismos tais que tornem a sua percepção eficaz, cujo resultado é a Sabedoria, ou dito de outra maneira, a Iluminação. A elas recorrem a Maçonaria, a Rosacruz, o Martinismo, A Ordem dos Cavaleiros Templários – as mais conhecidas.
Elas publicaram muitas obras, algumas privativas de seus integrantes; outras divulgaram ao público, porém fechadas num hermetismo desesperador ao leigo, o qual, ainda sem discernimento para entendê-las, pois que fruto de uma sociedade cartesiana, sectária e dogmática, as tomam por superstições e ignorância, deixando intacto o véu de Isis, e no seu burburio, o silêncio da Esfígie a imperar soberano.
Há seres iluminados que conquistaram a Sabedoria, pois esta é obtida única e exclusivamente por mérito próprio, eis que se submeteram à disciplina da alma e se prontificaram a divulgá-las aos homens de boa vontade e aos bem-aventurados.
Boa vontade sim, pois a má vontade conduz à displicência e a caminhos longos e tortuosos. E aos bem-aventurados, que na definição dos enciclopedistas lhes atribuem, em resumo, a qualidade de "muito feliz", a eles complemento o entendimento obtido através de insght pela minha amiga Erica Cons, que noutro dia me esclarecera, num bate-bapo informal, numa "troca de figurinhas" como ela sempre menciona:
...os bem-aventurados, são aqueles que se aventuram na busca pelo conhecimento, numa jornada fantástica ao encontro de si mesmos, ao tentarem compreender a vida, enfim, decifrar os seus maravilhosos mistérios.
E eles são muitos, porém, belamente preservados alhures nesta bela Casa que é o nosso Orbe. Entendi que todos os mistérios estão disponíveis a cada um, na medida em que nos permitimos a essa abertura interior e embarcamos nesta aventura da alma ao encontro de nosso Eu Interior - de Deus, que somos nós mesmos.
Toda a tradição encontra-se codificada, uma delas, a Bíblia Sagrada assim o está. E a ela me refiro por uma questão circunstancial pois que numa das conversas com Erica, esta inquiriu-me rapidamente sobre a Arca de Noé, que na ocasião não levamos adiante o assunto, mas que após meditação algumas setas indicativas surgiram. E assim foi que obtive algum esclarecimento num artigo de Manly P Hall, intitulado Noé e sua Admirável Arca, gentilmente cedido pela Fraternidade Rosacruz Max Heindel - Centro Autorizado do Rio de Janeiro http://www.fraternidaderosacruz.org/arcadenoe.htm e abaixo reproduzido.
Após sua leitura, dei-me conta da grandiosidade de Manly; posteriormente localizei a obra atribuída ao Conde de Sant-Germain, intitulada “O Mais Raro dos Manuscritos Ocultos – A Santíssima Trinosofia do Conde de Saint-Germain, com notas e comentários, interpretação de figuras e texto” por Manly Palmer Hall e que pode ser baixado no link http://www.sociedadeteosofica.org.br/biblioteca. Esse texto, desculpem-me pelo pleonasmo, é ainda mais extraordinário, pois desvenda muitos véus dos simbolismos que nos chegaram desde tempos ignotos.
As tradições comunicam conhecimento sob codificação. Mas porquê? Exemplifico: se fosse possível vislumbar que o ser humano traz dentro de si a Divindade e suas manifestações, seus Querubins, Suas Leis, tal qual uma Arca da Aliança, acreditaria? se fosse possível entender a Bíblia Sagrada como a saga do ser humano rumo à auto-consciência de que é o próprio Deus, acreditaria? Pois bem, há um ditado que diz: muitos são os chamados, poucos os escolhidos, recorda-se? A estes destina-se a codificação, pois estes são os desbravadores, são os que decidiram aventurar-se na senda que continuará desconhecida para aqueles.
Assim, em reconhecimento a esse maravilho personagem chamado Manly desejo tributar minha gratidão ao tempo que ajudo a divulgá-lo, como o faz a Fraternidade Rosacruz Max Heindel, pois em muito facilitou o entendimento da tradição. Esse canadense naturalizado norte-americano fundador da Philosophical Research Socitey, maçon e rosacruz da Fraternidade Rosacruz de Max Hendeil, cuja biografia, por ser extensa, a indico no link http://www.fraternidaderosacruz.org./
Assim, deixo que suas obras falem por si àqueles que o tempo maturou.
Imagens gentilmente cedidas pela : http://www.fraternidaderosacruz.org/arcadenoe.htm
NOÉ E SUA ADMIRÁVEL ARCA
por Manly P. Hall
Todas as passagens da Bíblia têm muitas interpretações, pois ela foi escrita como a chave de todas as coisas e não meramente como explanação de um único mistério. Por exemplo, quando estudamos a parte que fala da história de Noé e Sua Arca, estamos lidando com uma alegoria duodécupla. Muitos mistérios da Bíblia não foram ainda compreendidos pelos mais adiantados estudantes, e não o serão totalmente até que a mente humana atinja proporções cósmicas.
A Bíblia é um livro secreto e continuará secreto até que o próprio homem, pela purificação de seus corpos e o equilíbrio de sua mente, tenha fornecido à espada de seu espírito o poder de cortar o Nó Górgio e, para isso, o Irmão Leigo precisa despender anos e talvez vidas tentando desatá-lo.
A verdadeira obra oculta não é secreta; ninguém está proibido de estudar e dominar as leis da Natureza, mas, até termos nos preparado pelo serviço e pelo altruísmo, seremos incapazes de compreender a grandeza, a pureza e a justiça do Plano Universal.
A Bíblia é um livro secreto pela mesma razão que o estudante nada pode ver além do mundo físico ou nos livros sagrados até que tenha desenvolvido olhos internos para ver e apreciar as realidades ocultas.Ingersoll foi perfeitamente correto quando disse: "Um Deus honrado é a mais nobre obra do homem", pois, enquanto Deus for imutável segundo o conceito que d'Ele fazemos, Ele será para nós limitado pelos nossos próprios ideais, e os mistérios em Seus livros sagrados estarão velados aos olhos daquele que só vê com a visão física.
Retornemos ao livro do Gênesis, que contém a história da Arca e o Dilúvio, e leiamos os capítulos sexto, sétimo, oitavo e nono. Alguns pontos ficarão mais claros se o estudante ler esses capítulos antes de continuar a leitura deste artigo.
Primeiro consideremos o Dilúvio. Em todas as religiões do mundo encontramos referência a ele e todas concordam com a época aproximada em que ele ocorreu. O estudante de religiões comparadas certamente irá se lembrar da grande inundação que submergiu o que restava do continente Atlante cerca de nove mil anos antes de Cristo. Todas as inundações anteriores cobriram apenas uma parte da terra, e o pesquisador é forçado a procurar em outro lugar pela Grande Inundação ou Olvido de que se fala na Bíblia. Encontramos que a antiga palavra usada para inundação não significa necessariamente água, mas sim olvido ou esquecimento.
Uma das grandes leis da Natureza é a da periodicidade, em outras palavras, a lei de ação e repouso. Sabemos ser necessário ao homem dormir todas as noites para se refazer de seus grandes gastos de energia durante o dia. Sabemos que cada doação tem que ser balanceada por um recebimento. É o mesmo com o universo como é com o homem. Chega a ocasião em que o mundo precisa descansar após cada grande dia de manifestação. A isso se chama a Noite dos Deuses. Nessa oportunidade, todos os planetas e sóis retornam ao todo universal. Podemos observar esse processo acontecendo nas grandes nebulosas no céu. É então que Deus, o Criador, cessa de manifestar-se por um período de tempo antes de tornar a enviar globos nos quais deve se processar o desenvolvimento do homem. É quando Noé, representando o Deus de nosso Sistema Solar, e seus três filhos, representam a tríplice trindade, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, flutuam sobre o Olvido, carregando com eles todos os embriões de todas as coisas criadas que foram recolhidas para o Infinito.
Quando os mundos são manifestos novamente, esses seres são levados para os globos com cujas vibrações estejam afinados. O processo é o mesmo que é usado para o Ego, que contém em si todos os átomos sementes dos corpos inferiores. O Ego e a substância espiritual que o reveste constituem a Arca; os três filhos de Noé são os átomos sementes dos corpos inferiores e as esposas são os pólos negativos desses átomos. Noé é a mente. A Arca com os átomos sementes flutua na matéria mental antes da descida novamente dos átomos na matéria por meio do renascimento. Nas histórias maçônicas, acha-se mencionado um cabo reboque que liga a Arca com a terra. Isto o estudante conhece como sendo o cordão prateado que liga o espírito ao corpo.
Sabemos que o espírito não pode morrer. Os animais que são guiados para dentro da Arca representam a vida de todos os reinos que foi retirada para dentro de Deus e lá permanece até que planos de consciência sejam desenvolvidos para que a vida neles se manifeste.
Então, a história da Arca é a história do Ego construindo os corpos que, quando completados, vão dar a ele consciência em todos os planos da Natureza. Os três filhos de Noé, como já foi dito, são os três corpos inferiores. Para que o homem funcione em qualquer plano da natureza, ele precisa ter um corpo sintonizado com aquele plano. A perda de consciência significa que o veículo que sintoniza o espírito com aquele plano foi retirado. Desde que os três corpos inferiores tenham sido construídos, o Ego sempre tem um veículo de expressão e nunca perde consciência em nenhum plano da natureza.
Os animais da Arca representam assim os vários poderes do homem que são levados com ele vida após vida, na arca viva do próprio ser. A única janela na Arca representa o olho espiritual através do qual o homem superior contempla os corpos abaixo dele.
Quando o mundo ( os corpos ) novamente entra no ser, a Arca vai repousar no topo do Monte Ararat. Isto é a cabeça do homem ou o lugar alto no corpo. Lá, no seio frontal, o Ego se assenta e as forças dele, descendo outra vez, habitam o corpo.
Quando a pomba, o mensageiro, traz o raminho de acácia de volta para o homem superior, então ele sabe que os corpos inferiores retornariam à vida, e que será possível descer da Arca e com eles trabalhar. Isto mostra que os altos ideais e as forças animais transmutadas podem novamente ir a todos os lugares da Terra e prosseguir com seu trabalho.
A primeira coisa que Noé fez quando saiu da Arca foi construir um altar para o Senhor e, sobre esse altar ele construiu uma fogueira, e sobre esse altar ele fez sacrifícios a Deus. Cada um de nós que seguir seus passos terá de fazer o mesmo. O altar que ele construiu para Deus foi seu próprio corpo purificado e, diante Dele, ele e todos os seus filhos fizeram reverência. O fogo sobre o altar foi o fogo espiritual interno aceso por Noé por meio de seus atos e pensamentos. O sacrifício por ele feito sobre o altar foi o das paixões e emoções inferiores de sua vida.
Então, o arco-íris apareceu no céu e a promessa foi feita pelo Todo poderoso a Noé que, por todo o tempo que o arco lá permanecesse, jamais haveria outra inundação. Essa é uma alegoria admirável, especialmente quando nos lembramos que o arco-íris é feito das três cores primárias: o azul do espírito, o amarelo da mente e o vermelho do corpo. Estas são as cores da tríplice trindade do homem: o pai, o Filho e o Espírito Santo.
Assim que estes três princípios estejam equilibrados no homem, formando em suas combinações todas as demais cores, nunca mais haverá outro Olvido. Enquanto o coração, a mente e o corpo estão unidos, tudo vai bem. Mas, se apenas uma dessas cores desaparecer, a escuridão envolverá o Ego em cujo templo foi cometido o erro. O tríplice caminho que leva a Deus é entretanto apenas um. Se nós amamos com todo nosso ser e permitimos que a nossa mente e o nosso corpo sigam sem uso, estamos tirando o nosso arco-íris do céu. Se sabemos todas as coisas e não temos amor, nada conquistamos. Se temos conhecimento e amor, mas nos descuidamos das ações de nossas mãos e corpos no trabalho diário, nada conquistamos.
Nesse arco-íris, vemos o tríplice cordão prateado que, quando se parte, o corpo está morto. A morte é o resultado da cristalização, quando o corpo torna-se por demais pesado para ser carregado pelo espírito. Então ele é descartado e um outro é adquirido. É o mesmo com os pensamentos e emoções. Eles podem ser elevados e etéreos, embora sempre práticos. Se eles não o são, o arco-íris se quebra e o olvido, provocado pela discórdia e as incertezas, envolve o Ego e torna o caminho da vida muito mais difícil do que deveria ser.
A Analogia é a chave que abre muitos segredos. Nos mundos e nos indivíduos, a Natureza age da mesma maneira. Assim como é com os menores, assim é com os maiores. Se desejamos ser aqueles que se elevam acima das inundações do olvido e desejamos flutuar sobre o caos na Arca de nossas próprias almas, será necessário para nós construirmos esta arca como a natureza constrói a grande Arca Cósmica, isto é, pela elevação da consciência e o aperfeiçoamento dos sempre mais elevados veículos de expressão. Isto é feito vivendo-se diariamente a vida de serviço , reflexão e amor, cada um destes na mesma medida e, sempre, com o único ideal de manter aceso o fogo do altar de Deus.
- Traduzido da revista "Rays from the Rose Cross", órgão oficial da The Rosicrucian Fellowship, edição de maio-junho de 1988, pela Irmã Probacionista Laís da Gama Rosa Costa, in: http://www.fraternidaderosacruz.org/arcadenoe.htm
Abraços.



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