Permita-me te chamar assim. Entendo que os anos se passaram, que você cresceu, se tornou mulher; porém, ao contrário do que pensam as pessoas, você ainda guarda muito de sua inocência. Como sei? Porque sou pai. Sim, não sou o seu, mas sou pai de duas, portanto, pai de todas, porque o sentimento de pai é universal, porque é amor, não é paixão. Esta é individualista, egocêntrica; aquele é abrangente e impessoal em que pese ser dirigida a cada uma de um modo distinto.
Não te conheço pessoalmente, mas acompanho um pouco da tua vida à distância, pois você tem uma grande amiga que é minha filha. E te agradeço pelos cuidados que teve com ela nos momentos difíceis. Sou-lhe muito grato. De verdade!
É delicado, eu sei, mas não poderia deixar de publicar este post em tua homenagem e de fazer-te um pedido se for merecedor da tua atenção.
Antes, porém, quero te parabenizar por você tentar mudar o mundo. Em tua rebeldia, a vejo como uma semi-deusa, à semelhança de Hércules, que com os deuses frequentemente entrava em conflito, pois era muito leal aos seus amigos.
Os tempos são outros e, da analogia, deixo os deuses para dirigir-me ao Sistema que você tão bravamente combate.
Assim, como alguns anônimos, característica dos anarquistas, você empunhou esta espada na ânsia de decepar as cabeças da Hidra: a cabeça do capitalismo, a cabeça do socialismo, a cabeça pelo desrespeito à natureza e ao ser humano, enfim, a cabeça dos diferentes "ismos", pois os anarquistas não querem um governo, e sim que cada um cuide de si ou em sociedades autogestionárias, utilizando meios no mais das vezes agressivos.
Vivemos tempos difíceis. Não que o passado fosse pacífico, mas hoje devemos ser mais cautelosos, pois a história é a nossa grande professora.
Entendo que você, na sua juventude, na efervescência dos ideais por um mundo mais justo, não encontre nos atuais mecanismos, a concretização dos sonhos, os quais são tão injustamente ofendidos como podemos testemunhar com a falta de compromisso ético dos nossos representantes políticos. Já fui jovem, já me revoltei, senti-me sem opções...e é ai que reside o perigo, pois nessa ausência, nos desesperamos e abraçamos causas de esquerda ou de direita, ou nenhuma, optando pelo caos, como seguem alguns anarquistas.
Mas veja. A democracia ainda continua a ser, se não o ideal, o melhor caminho para a concretização dos sonhos. Nas palavras daquele que foi meu professor, Friedmann Wendpap, in http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=754177&tit=Governo-e-imprensa-responsabilidades-diferentes:
... As idéias são sempre propostas, nunca impostas. Essa é a diferença básica entre o poder político e o poder ideológico (poder das idéias). .... Nas guerras da antiguidade os mensageiros que levavam as propostas de um antagonista a outro eram preservados, dando origem à imunidade diplomática moderna. Hoje, a máxima “não mate o mensageiro” serve para manter uma das condições da democracia: a pluralidade de pensamento.
Então, te peço, reconsidere a maneira de demonstrar o teu inconformismo, pois ao imperar a violência, esta será sempre o argumento predileto daqueles que imaginam ser no totalitarismo a solução das inseguranças, que, a exemplo de passado recente, muitas vidas inocentes se perderam, e também... a de anarquistas; os totalitários estão sempre à espreita, à espera de uma oportunidade, para por o seu general de plantão – a serviço de um dos “ismos”, portanto não lhes dê essa chance, em respeito àqueles que deram suas vidas à paz de que hoje desfrutamos.
Temos que trabalhar pela paz. Ela começa inicialmente em cada um de nós. Antes de tentarmos mudar o mundo, olhemos para trás, para nossas pegadas, para descobrirmos como temos andado na estrada da vida, que espécie de rastro deixamos. Não adianta querermos participar de um processo de transformação do próximo, sem que para isso haja uma transformação de dentro para fora em cada um de nós, e isso exige compromisso de ordem moral, que gera estabilidade, paz, progresso, crescimento e evolução consciencial.
Observe, quando erramos, de uma forma ou outra eles ficam registrados em nossas consciências como pegadas que as águas do esquecimento não apagaram, e, em muitas situações elas afluem como angustias e depressões.
É necessário termos espírito crítico do certo e do errado, para tomarmos as atitudes corretas e de vanguarda, onde o nosso exemplo será como um farol a permitir que outros sigam em segurança as nossas pegadas, pois a visão da linha moral ficou tênue neste mundo tão nebuloso.
Sim, essa linha moral encontra-se nublada pelas mentiras do dia-a-dia; criticamos os políticos, mas vejamos nossas atitudes, são elas melhores a daqueles? Quantos não invejam a casa do homem corrupto em detrimento daquele trabalhador assíduo, modesto e digno. Quantos apregoam o ódio, a desavença, a maledicência, o desejar o mal para o próximo; não podemos, portanto, extrapolar a linha da moral, mesmo que amanhã sejamos por alguém prejudicados, pois se a perdermos, perderemos a dignidade. É preferível ter a consciência de que fomos injustiçados do que fazer injustiças. Não se faz justiça pelas próprias mãos, devemos recorrer às autoridades competentes. Fiquemos pois do lado correto, do lado da dignidade, da paz, do desapego, pois o apego, a posse, inviabilizam nosso livre trânsito consciencial nesta dimensão de ser, que é ser livre e amoroso.
As atitudes violentas, mesmo na defesa de uma idéia, trás embutida a noção de posse, seja do próximo, na pessoa do trabalhador, do namorado, da esposa, do esposo, do filho, da filha, gera dor, fere a dignidade moral. A democracia nos deu o direito de ir e vir, permanecer e ficar – com dignidade.
Quando, nos relacionamentos sociais os mais diversos, tais princípios não mais se coadunam, em que um está a ferir o outro, quer por palavras, atitudes, estas às vezes violentas, deve-se ter a honestidade do afastamento, do desempedimento, para que se possam reconstruir os ideais, os relacionamentos, com a compreensão mútua, enfim, com dignidade.
A crítica construtiva deve ser o nosso exercício constante, pois, os jovens, principalmente estes, sofrem com a desinformação, com a manipulação levada a efeito pelas minorias. Portanto, não aceitem sem uma análise crítica o que delas vêm. Essa minoria quando começam a agir, o fazem pelos meios poderosos proporcionados pela mídia que infelizmente contagia, influencia a maioria; observem, no caso, a homofobia, verão que é sempre uma minoria que no fim atinge a maioria. É preciso mais do que nunca ter a coragem de viver essa ordem moral. Porque a ordem moral significa o reconhecimento de uma espiritualidade. Significa o reconhecimento de uma eternidade, significa o reconhecimento do amor, da espiritualidade, da felicidade, da dignidade humana, e assim sucessivamente.
Portanto, esse é meu pedido...reconsidere.
Vanessa, você é uma vencedora.
Veja, o teu nome já começa com o V da vitória.
Grato por tentar fazer do mundo uma casa melhor.

Belas palavras.
ResponderExcluir