
Era uma tarde ensolarada de segunda-feira. Os raios do sol transpassavam os vidros fumês de formatos retangulares a revestir como paredes o prédio de puro concreto e ferro. Do interior da sala de audiências podíamos observar de nossa mesa a exuberância da paisagem externa entrecortada pelas árvores floridas que no seu silencio imposto pela ausência dos refrescantes ventos, testemunhavam uma cena um tanto estranha.
Ano passado, ao integrar uma comissão de processo administrativo disciplinar, na condição de membro secretário, travou-se um diálogo durante o intervalo ocorrido entre audiências.
O advogado da parte acusada dirigiu-se a mim:
-Outro dia, estava a resolver uma determinada situação numa repartição da Secretaria X, quando percebi haver animosidade entre funcionários, para não dizer uma competição entre eles, isso é assim em todas as repartições públicas?
-Como? Respondi ao ser surpreendido pela observação inusitada.
-É que não somente naquela Secretaria X, mas como advogado transito em outras repartições, e tenho observado que há formação de grupos a competir entre si, isso procede?
-Disfarçadamente me recompus, e, pretendendo dar um ponto final numa questão inconveniente respondi que isso era incomum, possivelmente um caso isolado.
E a conversa ficou por aí mesmo, para meu alívio, pois se dava início à outra audiência.
O tempo passou, mas aquela indagação permaneceu. Observei, então, que o advogado tinha razão, pois nesse meio tempo passei a prestar mais atenção às pessoas com quem me relacionava, e às dos demais setores da minha Secretaria.
O que me intrigou é que precisamente no meu setor, a harmonia imperava, inclusive com minha chefia imediata, mas porque isso não acontecia em alguns outros?
Percebi haver servidores que não atendiam determinadas situações de pronto, outros tinham manifesta má vontade em prestar algum tipo de auxílio, e quando o faziam arrastavam-se languidamente como a puxar correntes numa casa assombrada. Outros se recusando a repassar informações ao novo funcionário que acabara de chegar, vendo-o como um inimigo em potencial a lhe usurpar a função. E aqueles em clara bajulação de suas chefias como a esconder sua incapacidade de processar sua própria vida funcional. Algumas chefias que vêem no subordinado um meio de usá-los como objetos para atingir seus objetivos particulares. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi a sensação de medo a imperar em várias pessoas, sejam subordinados ou superiores hierárquicos. Elas têm medo. Medo de perder cargos em comissão. Medo de não agradar o superior e com isso perder a promoção. O modo desrespeitoso como alguns subordinados são tratados, e isso vale para os postos mais altos da administração, como se a dignidade pessoal nada significasse. O receio de numa troca de governo ser dispensados.
Enfim, são vários os motivos que levam à formação de conflitos em que todos se digladiam, uns explicitamente, outros sob o disfarce do silêncio a lubrificar o tapete do próximo.
Constatei, para minha surpresa, como a maioria dos funcionários públicos é infeliz. São poucos os que efetivamente possuem vocação pública, desprendimento e prontidão. Escondem-se em justificativas como baixo salário, não reconhecimento dos seus esforços, e por ai vai.
Foi muito triste constatar essa situação – mas ela é real.
E olha que isso não é diferente noutras Secretarias, como Judiciário, Ministério Público, Secretaria da Saúde etc.
Mas por que é assim?
Alguns dirão que é pela ausência do espírito público, pela falta de profissionalismo, pela ganância, por não possuírem vocação etc.
Entendo que é algo mais.
O funcionário público, e aqui prefiro a conotação “servidor público", pois que servimos ao Estado, o qual entre outras coisas é principalmente, o conjunto dos seus cidadãos que ao voltar-se a nós, o faz na perspectiva de encontrar receptividade à pronta solução de seus problemas, e que devem, necessariamente, encontrar servidores vocacionados, pois o agente público, é antes de mais nada, um transformador, um “agenciador de uma nova ordem”, detentor de espírito crítico para entender que é o dinamizador de uma “ordem política mais humana” na administração pública, e que esta, como sempre foi, há de influir na administração privada, portanto, com efeito multiplicador na construção da pessoa humana.
Assim, a questão proposta é “viver como pessoa”.
O que desejo dizer com isto? Simplesmente que devemos vivenciar o contexto da dignidade humana, pois temos uma responsabilidade pelo cidadão, principalmente para com as classes humildes. A estas é imperativo o diálogo, o olhar sincero e despretensioso, é o toque corporal tão característico de nossa latinidade, a utilização de palavras carinhosas e envolventes. Diferentemente daqueles que deveriam ser os formadores de opinião, mas que por uma “deformação da Universidade que não lhes trabalhou o sentido moral, tornaram-se falaciosos, pois os fracos quando se dizem poderosos, estão sempre querendo ser poderosos, então eles são absolutamente servis ao poder, é quem está com o poder econômico e social; são os que ostentamente, pavorosamente tentam destruir as classes mais pobres, os fracos, e aqueles que precisam do aconchego”. Veja-se o lamentável episódio dos estudantes de medicina da Universidade de Londrina, que prestes a ser diplomados, deflagraram bombas, fizeram algazarra como qualquer ébrio inconseqüente a destratar pacientes no pronto-socorro em que tinham estagiado:http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=840449&tit=Depois-de-mim-o-diluvio-
Essa deformação há que ser corrigida com um novo padrão cultural onde a criação seja valorizada. Há de se entender que cada um de nós tem a potencialidade de criar, portando de transformar a realidade; somente assim, como multiplicadores de uma idéia de melhoria para a sociedade e dentro do pleno diálogo livre de preconceitos é que atingiremos o objetivo em vista.
Continuando nas palavras de Leocádio José Correia:
Qual objetivo? A idéia da paz, da valorização humana, de reconhecermos o que cada um faz de melhor, pois o fazer traz respeito na maneira de sentir o processo da vida.
Assim temos que ter a capacidade de estarmos preparados para administrar qualquer dor, crise, sofrimento, em qualquer lugar e em qualquer hora. É preciso que sejamos muito fortes, para isso é preciso um treinamento muito importante. Qual é o treinamento? É treinamento de se aceitar, é o treinamento de cuidar mais do seu pensamento, é o treinamento de se cuidar mais da sua pessoa, é o permanente estágio de se perguntar: eu estou no estágio do Ter ou do Ser? No primeiro perdemos a essencialidade do Ser; perguntar como é que eu estou enxergando o mundo, qual é a minha participação no mundo, o que é que eu espero do mundo. É preciso que cada um tenha a consciência crítica para não sentir preparar-se para a morte, mas é no sentido de se preparar permanentemente para a vida. Administrando todas as situações, procurando ser justos, não se irritando tanto com a vida, tendo uma dignidade na maneira de ser, na maneira de falar, na maneira de agir, estando absolutamente pronto para perdoar, e disposto a ouvir sempre as pessoas... sempre dispostos a ouvir as pessoas...sempre....isso é fundamental para o indivíduo ser feliz...E o que é o homem feliz? O homem feliz é aquele que venceu a si mesmo... não há homem feliz sem ter vencido a si mesmo. O que salva é o conhecimento e a sabedoria. As outras coisas são vinculadas a um nível de acesso dependendo do alcance possível de cada um. Temos que ser lúcidos, que saibamos perder e ganhar em pé.
É algo que transcende a nossa mente, o modo pelo qual reagimos à vida, ao nosso semelhante.
Precisamos entender que para sermos felizes, temos que desejar a felicidade do outro. Quando estamos em contato com outra pessoa, devemos ver o seu Eu divino, não a qualidade que nos indigna, mas entender que ela tem sua contraparte divina e que tão logo capte nossa real intenção de como a vemos, ela, imediatamente se conectará com o seu próprio ser, advindo daí a autotransformação, pois que se terá estabelecido aquela ponte tal qual o arco-íris a ligar as duas margens do rio, a da matéria com o espírito.
Na medida em que vemos o mal nas pessoas, potencializamos essa maldade e é isso que colheremos, mas, quando vemos a luz que cada qual trás em si, ela se amplificará e transformará tudo o que estiver em seu raio de ação, inclusive a nós próprios.
Isso não quer dizer que devemos negar o que vemos de ruim nas pessoas manifestar, mas como disse James Redfield:
É claro que temos de ver as coisas como elas são, mas depois disso devemos mudar imediatamente as nossas expectativas daquilo que é para aquilo que podia ser. ..., devia ter compreendido que embora ele aja de forma maligna, desligado de qualquer espiritualidade, o eu superior dele é capaz de ver a luz num instante. É essa a expectativa que interessa reter, porque então está realmente a enviar o seu campo de oração nessa direção, para aumentar a energia e consciência dele. Deve voltar sempre a essa postura mental, não importa aquilo que tiver visto.
É na humildade e simplicidade que o servidor público desempenha bem sua função, sem bajular o poder e muito menos adular o pobre, mas trabalhar com dignidade, coroando assim um dos princípios basilares da administração pública, o da impessoalidade.
Então colegas, procuremos nos conscientizar dessas peculiaridades, estudar o homem como um todo e internalizar o conhecimento, para que com o tempo, possamos ter a sabedoria de bem agir.
Abraços.
Bartholomeu, não imaginava que você fosse um literato, que se expressasse tão bem, que tivesse toda essa compreensão do mundo. Aqui pude conhecer você melhor, e achei fabuloso o que escreve, a forma como sente, como pensa. Só posso deixar-lhe aqui meus parabéns pela pessoa maravilhosa que você é e pela arquitetura de suas palavras, que expressa com tanta maestria a forma como pensa diante das situações da vida.
ResponderExcluirSua colega,
Cecília