A cidade ergueu-se numa montanha.Desse Olimpo observo a larga paisagem perder-se na linha do horizonte, entremeada por morros esparsos.
É terra de cheiro.
Cheiro de nuvem, de chão batido, de mato, onde o vento corre solto.
À minha frente seus vórtices percorrem as ruas como um cavalo indomável, levantam poeira num prelúdio do que estava por vir.
A vegetação, em toda sua pujança e cor, cerca-nos com seus movimentos de vai-e-vem. Pés de café revolteiam atirando os grãos avermelhados.
O sabor do caroço de algodão atirado à boca após uma passada de mão no algodoeiro que teimava em passar pelo meu caminho sem fim, foi atirado numa cuspida, que inconseqüente alertou a cobra-cega a roçar meus pés mergulhados na poça que se forma enquanto a chuva molha mais e mais meu corpo sob um sol morno e gostoso.
Cabelos escorridos, camisa aberta, calção curto.
Pés que amassam barro a escorrer entre dedos, deixam pegadas que a água leva.
Pernas que caminham lépidas, enquanto a mão direita num movimento ritmado recolhe o longo fio que enlaça a latinha noutra mão.
A esperança de salvar o pássaro de bambu e papel, com elos intermináveis de cores exuberantes, interrompido de alcançar o arco-íris que os olhos contemplam, a observar seus arcos findar, eu imaginava, em potes de ouro.
Indaguei: vou lá? Nunca fui! Apesar do tempo se recusar a caminhar.
Agora, tudo o que me importa é salvar-me antes que tombe molhado daquela imensidão, pois ele e eu somos um só; nele estão meus olhos, meus sentidos, minha emoção, meus sonhos... meus cheiros.
Abro os olhos e suspiro. Meus seis anos se foram, mas ainda sinto o gosto do algodão e o cheiro do tempo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário